Placa miorrelaxante funciona? O que a ciência diz, como é feita e o que esperar do tratamento para bruxismo
Placa miorrelaxante funciona? Reduz em até 89% os sintomas do bruxismo. Veja quanto tempo usar, adaptação nos primeiros dias e quando buscar tratamento.
Dr. Felipe Crespilho
CRO-SP 130734 · Sobre a equipe
Funciona, sim. A placa miorrelaxante não cura o bruxismo --- nenhum tratamento cura, porque bruxismo é um hábito, não uma doença com começo e fim. O que a placa faz é proteger seus dentes do desgaste, distribuir as forças que a mandíbula gera enquanto você dorme e reduzir a tensão muscular que provoca dor de cabeça e dor na mandíbula ao acordar. Estudos apontam redução de até 89% nos sintomas com uso contínuo da placa rígida. Mas tem condições: precisa ser de acrílico rígido, feita sob medida e ajustada pelo dentista. Placa de farmácia não conta.
40% dos brasileiros têm bruxismo --- e a maioria não sabe
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 30% da população mundial sofre de bruxismo. No Brasil, esse número sobe para 40% --- cerca de 84 milhões de pessoas, segundo levantamento publicado pelo Jornal da USP.
O problema é que a maioria dos casos acontece durante o sono. Você range ou aperta os dentes e não percebe. Quem percebe é o parceiro (pelo barulho) ou o dentista (pelo desgaste no esmalte). Muita gente convive anos com dor de cabeça matinal, tensão na mandíbula e sensibilidade nos dentes sem ligar esses sintomas ao bruxismo.
A pandemia piorou o cenário. Um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine mostrou que 76% dos entrevistados relataram início ou agravamento de sintomas de bruxismo nos primeiros meses de isolamento. A UFMG registrou aumento na procura por tratamento de bruxismo durante e após a pandemia.
O que a placa miorrelaxante faz de verdade
A placa miorrelaxante é um dispositivo de acrílico rígido, transparente, feito sob medida para encaixar na sua arcada (superior ou inferior). Você usa durante o sono.
Na prática, ela faz três coisas:
Protege os dentes. Quando você range ou aperta durante a noite, a força recai sobre a placa --- não sobre o esmalte. Sem placa, essa força pode chegar a até 6 vezes a pressão mastigatória normal. O resultado, com o tempo, são dentes lascados, trincados, com esmalte desgastado e restaurações que fraturam.
Distribui a força. A superfície lisa e plana da placa distribui a pressão de forma uniforme pela arcada. Em vez de concentrar tudo em dois ou três pontos de contato, a carga se espalha. Isso poupa dentes isolados e reduz a sobrecarga na articulação temporomandibular (ATM).
Relaxa a musculatura. A posição que a placa impõe à mandíbula induz o côndilo --- a parte do osso que se articula com o crânio --- a uma posição mais estável. Os músculos da mastigação trabalham menos durante a noite. O efeito direto: menos dor na mandíbula, menos dor de cabeça ao acordar e menos tensão no pescoço.
Um estudo publicado no Archives of Health Investigation avaliou o tratamento com placa miorrelaxante rígida combinada com TENS (estimulação elétrica) e demonstrou redução significativa da atividade eletromiográfica do músculo temporal em repouso. Traduzindo: os músculos efetivamente relaxaram com o uso da placa.
A Cochrane tem ressalvas --- e isso não invalida o tratamento
Se você pesquisou sobre o assunto, talvez tenha encontrado uma informação aparentemente contraditória: a revisão sistemática Cochrane concluiu que “não há evidência suficiente para afirmar que placas oclusais são efetivas para o tratamento do bruxismo do sono”.
Parece um balde de água fria. Mas o contexto muda tudo.
A revisão Cochrane avalia se a placa elimina o hábito de ranger --- e não, ela não elimina. Bruxismo é regulado pelo sistema nervoso central durante o sono. Nenhum dispositivo intraoral desliga esse mecanismo. O que a placa faz --- e faz bem --- é controlar os danos e reduzir os sintomas. Protege esmalte, alivia dor muscular, previne fraturas de restaurações.
Pra você ter uma ideia: se a placa não funcionasse como proteção, dentistas do mundo inteiro não a indicariam como primeira linha de tratamento há décadas. Uma revisão publicada no Brazilian Journal of Health Review confirma que a placa miorrelaxante é o recurso mais indicado na prática clínica, combinada com abordagem multidisciplinar quando necessário.
Como a placa é feita: do consultório ao laboratório
O processo é simples e leva duas consultas.
Primeira consulta. O cirurgião-dentista examina a mordida, avalia o padrão de desgaste dos dentes e o estado da musculatura. Faz a moldagem da arcada --- ou escaneamento digital, dependendo do consultório. A moldagem gera um modelo exato dos seus dentes.
Laboratório. O protético confecciona a placa em acrílico rígido, encaixada perfeitamente nos seus dentes. O prazo varia de 7 a 14 dias.
Segunda consulta. O dentista testa o encaixe, verifica os pontos de contato e ajusta a superfície para que a mandíbula se posicione de forma estável. Esse ajuste é a etapa mais importante. Uma placa mal ajustada pode gerar desconforto ou até interferir na mordida.
Placas impressas em resina 3D já são uma realidade. O fluxo digital (escaneamento + impressão 3D) acelera o processo e oferece encaixe preciso, conforme relato de caso publicado na Revista ImplantNews.
Placa rígida vs. placa de silicone: a diferença que importa
Essa distinção pode definir se o tratamento vai dar certo ou não.
A placa rígida de acrílico é o padrão-ouro. Ela é dura, lisa e estável. Quando você aperta os dentes, a mandíbula desliza sobre a superfície sem travar. Isso descarrega a musculatura. É indicada para bruxismo moderado e severo.
A placa de silicone (macia) é flexível e parece mais confortável nos primeiros dias. O problema: material mole estimula o apertamento. Seu cérebro interpreta a resistência elástica como algo para morder, e você aperta mais. Uma análise do portal LIVA Saúde aponta que placas de silicone podem piorar o bruxismo em vez de controlar.
E as placas genéricas de farmácia? Não servem. Não têm ajuste individualizado, não posicionam a mandíbula corretamente e podem causar migração dentária --- dentes que saem do lugar. Uma placa mal adaptada gera danos à arcada, dores na articulação e na face.
Resumo: placa miorrelaxante que funciona é rígida, de acrílico, feita sob medida e ajustada pelo dentista. Qualquer atalho piora o quadro.
Primeiros dias com a placa: o que esperar
A adaptação incomoda. Não vou mentir. Os primeiros 3 a 5 dias são os piores.
Salivação excessiva. Seu corpo interpreta a placa como um corpo estranho e produz mais saliva. É normal acordar com o travesseiro úmido nos primeiros dias. Passa em uma semana.
Sensação de aperto nos dentes. A placa encaixa firme --- precisa encaixar. Nos primeiros usos, você sente pressão sobre os dentes ao acordar. Desaparece em minutos.
Dificuldade pra dormir. Ter um objeto na boca atrapalha o sono nos primeiros dias. A maioria se adapta entre a segunda e a terceira semana. Quem desiste antes disso não dá tempo ao tratamento.
Vontade de tirar durante a noite. Acontece. Algumas pessoas arrancam a placa dormindo sem perceber. Persistência resolve --- o corpo se acostuma.
Se a placa causar dor intensa que não melhora em 3 dias, ou se machucar a gengiva, volte ao dentista. Pode ser um ajuste necessário, não um problema do tratamento em si.
Quanto tempo usar: a placa é pro resto da vida?
Depende do caso, mas a resposta curta é: provavelmente sim. O bruxismo não tem cura. Tem controle.
A placa deve ser usada toda noite, durante todo o sono. Em fases de crise --- estresse alto, mudança de emprego, problemas pessoais --- alguns dentistas orientam uso diurno também.
A durabilidade da placa rígida de acrílico varia de 2 a 3 anos em média. Casos de bruxismo severo podem gastar a placa em 6 a 12 meses. A mesma força que destrói esmalte destrói acrílico. O ponto positivo: melhor trocar uma placa de R$ 500 do que restaurar dentes que custam muito mais.
A placa precisa de acompanhamento. Consultas periódicas --- a cada 6 meses, pelo menos --- servem para verificar o desgaste, refazer ajustes e avaliar se o padrão de bruxismo mudou.
Bruxismo do sono vs. bruxismo de vigília: a placa resolve os dois?
Existem dois tipos de bruxismo, e eles funcionam de formas diferentes.
O bruxismo do sono é inconsciente. Você range e aperta os dentes enquanto dorme. A placa miorrelaxante foi desenvolvida para esse cenário --- proteger durante as horas em que você não tem controle.
O bruxismo de vigília acontece durante o dia. Você aperta os dentes em momentos de concentração, estresse ou tensão. Um estudo com universitários publicado no SciELO encontrou prevalência de bruxismo de vigília em 61,9% dos participantes. A maioria apertava os dentes sem perceber enquanto estudava ou usava o computador.
Para o bruxismo de vigília, a placa pode ser usada em alguns casos, mas o tratamento principal é comportamental: perceber o hábito e interromper. Técnicas como automonitoramento (colocar lembretes visuais no computador ou celular) ajudam a quebrar o ciclo.
Na prática, muitos pacientes têm os dois tipos. A placa protege durante a noite, e a consciência do hábito protege durante o dia.
Quando a placa sozinha não basta
Bruxismo severo pode precisar de mais do que uma placa. Nesses casos, o tratamento é multidisciplinar.
Fisioterapia. Exercícios de relaxamento da musculatura mastigatória e do pescoço. Em casos de dor crônica na ATM, a fisioterapia é indispensável.
Gestão do estresse. Se o gatilho principal é emocional --- e na maioria dos casos é --- tratar a causa é tão importante quanto proteger os dentes. Acompanhamento psicológico, exercício físico regular e higiene do sono fazem diferença.
Toxina botulínica. O uso de botox nos músculos mastigatórios (masseter e temporal) é uma alternativa para casos severos que não respondem à placa. Reduz a força muscular por 3 a 6 meses. Precisa de reaplicação periódica.
Avaliação do sono. Bruxismo está associado a distúrbios do sono, especialmente apneia obstrutiva. Se você ronca, acorda cansado ou tem sonolência diurna, uma polissonografia pode revelar uma causa subjacente que a placa não resolve sozinha.
O cirurgião-dentista avalia o caso e direciona. Nem todo bruxismo precisa de tudo isso. Muitos pacientes resolvem com a placa + consciência do hábito + redução de cafeína e álcool à noite.
O que acontece se você não tratar
Bruxismo não tratado tem consequências cumulativas. Não é uma bomba que explode de uma vez --- é um desgaste contínuo que cobra a conta em anos.
Esmalte destruído. Os dentes ficam mais curtos, planos e sensíveis. Exposição da dentina causa dor com alimentos quentes, frios ou ácidos. Recuperar essa estrutura exige restaurações, coroas ou lente de contato dental --- e esses tratamentos custam muito mais do que uma placa.
Fraturas de restaurações. Quem tem resina composta, porcelana ou prótese sobre implante e não controla o bruxismo vai quebrar essas restaurações repetidamente. É dinheiro jogado fora.
Dor crônica na ATM. A articulação temporomandibular sofre com a sobrecarga. Estalos, travamentos e dor ao abrir a boca se instalam gradualmente.
Retração gengival. A pressão lateral sobre os dentes pode causar perda de gengiva na base, expondo a raiz. Além de sensibilidade, o risco de cárie radicular aumenta.
Quem usa lente de contato dental ou fez reabilitação oral sem controlar o bruxismo antes arrisca perder o investimento. Por isso, o tratamento do bruxismo costuma ser a primeira etapa antes de qualquer procedimento estético ou protético.
O plano odontológico cobre a placa?
O tratamento de bruxismo --- incluindo a placa miorrelaxante --- não está no ROL obrigatório da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Planos odontológicos básicos não cobrem.
Alguns planos com cobertura ampliada (tipo Amil Dental E60 e E90) incluem a placa como benefício extra. Se o seu convênio cobre, a consulta e a moldagem entram no plano; a placa pode ou não entrar, dependendo do contrato.
No mercado particular, a placa miorrelaxante custa entre R$ 500 e R$ 1.500, dependendo do material, da região e do profissional. Parece caro? Compare com o custo de restaurar uma arcada inteira destruída pelo bruxismo --- aí a placa vira o investimento mais barato que você pode fazer.
Sinais de que você precisa de uma avaliação para bruxismo
Se dois ou mais desses sinais se encaixam, vale marcar consulta:
- Acorda com a mandíbula dolorida ou travada
- Dor de cabeça frequente pela manhã, especialmente nas têmporas
- Alguém reclama que você range os dentes à noite
- Dentes com bordas lascadas ou que parecem estar ficando mais curtos
- Sensibilidade que aparece e desaparece sem causa aparente
- Restaurações que fraturam com frequência
- Estalos ou dor ao abrir a boca
O diagnóstico é clínico. O dentista analisa o desgaste, palpa a musculatura e avalia a mordida. Em alguns casos, uma radiografia panorâmica complementa a avaliação.
A placa miorrelaxante funciona para quem usa corretamente, toda noite, com acompanhamento profissional. Não é um dispositivo mágico que elimina o bruxismo. É uma ferramenta de proteção que preserva seus dentes, alivia a dor e melhora a qualidade do sono.
Se você se identificou com os sintomas, o próximo passo é uma avaliação. O Dr. Felipe Crespilho (CRO-SP 130734), cirurgião-dentista com atuação em bruxismo, atende em Araraquara. Agende pelo WhatsApp ou entre em contato pela página do site.
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