Como usar fio dental corretamente: técnica passo a passo, frequência ideal e os erros que machucam a gengiva
Como usar fio dental corretamente em 5 passos: frequência ideal, os 5 erros que causam sangramento e alternativas para quem tem aparelho ou ponte.
Dra. Sabrina Martins
CRO-SP 138491 · Sobre a equipe
A maioria das pessoas que usa fio dental faz errado. Serram o fio para baixo, machucam a gengiva, sangram --- e param de usar. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2019) do IBGE, menos de 20% dos brasileiros passam fio dental todos os dias. A escova limpa cerca de 60% da superfície dos dentes. Os outros 40% --- as faces entre um dente e outro --- ficam por conta do fio. Sem ele, placa bacteriana se acumula, endurece em tártaro e abre caminho para gengivite e cárie interdental.
O passo a passo correto leva menos de 3 minutos.
Por que o fio dental não é opcional
A escova de dentes --- elétrica ou manual --- não alcança o espaço entre os dentes. As cerdas limpam a face frontal, a face de trás e a superfície de mastigação. Sobram as laterais, onde o dente encosta no vizinho. É exatamente ali que a placa bacteriana se instala primeiro.
Placa é um biofilme de bactérias que se forma sobre o esmalte em menos de 24 horas. Se não for removida, essas bactérias fermentam resíduos de comida e produzem ácidos. Ácidos que corroem o esmalte e causam cárie. Segundo o Manual MSD para Profissionais, a remoção da placa ao menos a cada 24 horas --- com escovação e fio dental --- é a forma de prevenir cárie.
A gengiva sofre também. Placa não removida entre os dentes inflama a gengiva. Começa com gengivite --- gengiva vermelha, inchada, que sangra ao escovar. Se não tratada, evolui para periodontite, que destrói o osso que sustenta o dente. A pesquisa SB Brasil 2010 do Ministério da Saúde mostrou que apenas 17% dos adultos entre 35 e 44 anos não tinham nenhum problema periodontal. Os outros 83% já apresentavam algum grau de doença na gengiva.
O fio dental é a ferramenta mais acessível para quebrar esse ciclo. Custa entre R$ 5 e R$ 15, dura semanas e não precisa de prescrição.
A técnica correta em 5 passos
A técnica parece simples, mas tem detalhes que fazem diferença entre limpar de verdade e só passar o fio por passar.
Passo 1 --- Corte uns 40 cm de fio. Parece muito, mas você precisa de fio limpo para cada espaço. Enrole a maior parte no dedo médio de uma mão. O restante, no dedo médio da outra. Os dedos médios funcionam como carretéis.
Passo 2 --- Segure com polegar e indicador. Deixe uns 3 a 5 cm de fio esticado entre as duas mãos. O controle vem dos polegares (para os dentes de cima) e dos indicadores (para os de baixo). Fio frouxo demais escorrega. Fio curto demais não alcança a gengiva.
Passo 3 --- Deslize entre os dentes com movimento suave. Use um movimento de vai-e-vem lateral para passar pela área de contato entre os dentes. Nunca empurre o fio reto para baixo de uma vez --- ele vai bater na gengiva e cortar.
Passo 4 --- Forme um C ao redor de cada dente. Esse é o passo que a maioria pula. Quando o fio chegar na linha da gengiva, curve-o em forma de letra C abraçando a lateral do dente. Deslize para cima e para baixo, raspando suavemente a superfície. Depois, faça o mesmo no dente vizinho --- no mesmo espaço, são duas superfícies para limpar.
Passo 5 --- Avance o fio limpo. Conforme vai passando para o próximo espaço, desenrole um trecho limpo do dedo que tem mais fio e enrole o trecho usado no outro. Assim você não espalha bactéria de um espaço para outro.
Repita em todos os espaços --- incluindo atrás do último molar de cada lado. Muita gente esquece essa região, e é justamente ali que restos de comida mais se acumulam.
Antes ou depois de escovar?
Essa dúvida rende debate até entre dentistas. Um estudo de 2018 publicado no Journal of Periodontology (Mazhari et al.) testou as duas ordens em 25 voluntários. O resultado: passar o fio dental primeiro e escovar depois reduziu significativamente mais placa interdental. A explicação faz sentido --- o fio solta os resíduos, e a escovação seguida de enxágue remove o que ficou solto.
Uma revisão posterior de 2022 no International Journal of Dental Hygiene, porém, não encontrou diferença estatisticamente significativa entre as duas sequências. Na prática, o que o consenso recomenda é simples: o mais importante é usar o fio dental todos os dias, independentemente da ordem. O estudo de 2018 também observou que a concentração de flúor da pasta permaneceu mais alta nos espaços interdentais quando o fio veio antes --- o flúor penetra melhor nas áreas que o fio acabou de limpar.
Se você tem dificuldade em criar o hábito, passe o fio antes de escovar. Funciona como um gatilho --- você já está no banheiro, o fio vem primeiro, a escovação fecha a rotina.
5 erros que machucam a gengiva (e fazem você desistir)
Erro 1 --- Serrar a gengiva. O fio não é serrinha. Empurrar reto para baixo com força faz o fio bater no triângulo de gengiva entre os dentes. Resultado: dor, sangramento e vontade de nunca mais usar. O correto é o movimento lateral de vai-e-vem ao passar pelo ponto de contato.
Erro 2 --- Pular o movimento em C. Enfiar o fio entre os dentes e puxar de volta sem abraçar cada superfície não remove placa. Você precisa curvar o fio contra a lateral do dente e deslizar. São duas superfícies por espaço.
Erro 3 --- Usar o mesmo trecho em todos os dentes. Se você não avança o fio limpo, está transportando bactérias de um espaço para o outro. Enrole o trecho usado e libere fio novo a cada passagem.
Erro 4 --- Forçar demais em dentes apertados. Se o fio não passa fácil, tente fio encerado ou fita dental. Forçar o fio num espaço apertado pode machucar a gengiva e criar retração gengival ao longo do tempo.
Erro 5 --- Parar quando sangra. O sangramento gengival nos primeiros dias de uso é normal e esperado. A gengiva inflamada sangra ao contato --- é sinal de que já existia acúmulo ali. Segundo a American Dental Association (ADA), o sangramento tende a diminuir em uma a duas semanas de uso diário consistente. Se persistir além disso, é hora de procurar um dentista --- pode ser gengivite que precisa de profilaxia profissional.
Qual tipo de fio dental usar
Não existe um tipo que sirva para todo mundo. A escolha depende do espaço entre os seus dentes e da presença de próteses ou aparelhos.
Fio dental convencional (não encerado) é o mais comum. Funciona bem para a maioria das pessoas com espaçamento normal entre os dentes. As fibras se abrem ao contato com a superfície, cobrindo uma área maior.
Fio dental encerado tem uma camada de cera que facilita o deslize em espaços apertados. Se os seus dentes são muito juntos e o fio convencional desfia ou fica preso, troque pelo encerado. Segundo o Portal da Saúde do MPU, ambos removem a mesma quantidade de placa --- a diferença é o conforto.
Fita dental é mais larga e achatada que o fio. Indicada para quem tem espaços maiores entre os dentes ou gengiva sensível. Desliza com menos atrito e cobre mais superfície por passada.
Superfloss é um fio com ponta rígida e parte esponjosa. Feito para quem usa prótese fixa, ponte ou implante dentário. A ponta rígida funciona como agulha e permite passar o fio sob a estrutura da prótese, onde o fio convencional não entra.
Passador de fio é um acessório de plástico com formato de agulha. Você enfia o fio no passador, e ele guia por baixo de pontes, aparelhos ortodônticos e próteses sobre implante.
Alternativas ao fio dental convencional
Quem tem implante dentário, prótese protocolo ou ponte fixa precisa de cuidado extra na limpeza interdental. O fio convencional não alcança o espaço entre a gengiva e a estrutura da prótese. A principal causa de perda de implante a longo prazo é a peri-implantite --- uma inflamação ao redor do implante causada pelo acúmulo de placa bacteriana. A prevenção começa com a limpeza diária dessa região.
As opções mais indicadas para esses casos são o Superfloss e o passador de fio. Outra alternativa é o irrigador oral --- um aparelho que dispara jatos de água pulsante e remove resíduos de áreas difíceis. A revisão Cochrane de 2019 sobre dispositivos de limpeza interdental concluiu que irrigadores e escovas interdentais podem ser tão eficazes quanto o fio dental para reduzir gengivite, com evidência de baixa a moderada qualidade.
A escova interdental merece destaque. Parece uma escovinha em miniatura, com cerdas presas a um fio metálico fino. Funciona bem para quem tem espaço maior entre os dentes, retração gengival ou dificuldade motora para manipular o fio. A mesma revisão Cochrane encontrou evidência de que escovas interdentais podem reduzir gengivite mais do que o fio dental em períodos de um e três meses.
O ideal é combinar: escova interdental para os espaços onde ela entra sem forçar, fio dental para os espaços apertados. Se tiver dúvida sobre qual combinação funciona para a sua boca, seu dentista pode orientar durante a limpeza dental de rotina.
Com que frequência usar
Uma vez por dia é suficiente. A American Dental Association (ADA) e o Conselho Federal de Odontologia (CFO) recomendam o uso diário do fio dental, preferencialmente antes de dormir. O motivo: durante o sono, a produção de saliva diminui. Saliva protege contra bactérias. Com menos saliva, a placa que ficou entre os dentes durante o dia tem campo livre para agir a noite inteira.
Se você vai usar uma vez só, que seja à noite, antes da última escovação. Se conseguir duas vezes --- de manhã e à noite --- melhor ainda. Mais do que isso não é necessário, desde que a técnica esteja correta.
Um cenário concreto: uma pessoa que escova os dentes três vezes por dia mas nunca usa fio dental vai acumular placa nos espaços interdentais. Em semanas, essa placa endurece e vira tártaro. Tártaro só sai com raspagem no consultório. Em meses, a gengiva começa a sangrar, inchar e retrair. Esse é o caminho da gengivite para a periodontite --- e tudo isso poderia ter sido evitado com 3 minutos de fio dental por dia.
Quando procurar um dentista
O fio dental é prevenção caseira. Mas existem situações que pedem avaliação profissional.
Sangramento que persiste por mais de duas semanas de uso diário correto pode indicar gengivite que já precisa de profilaxia profissional. Mau hálito que não melhora com escovação e fio dental pode ter origem periodontal. Dor ao passar o fio em uma região específica pode ser sinal de cárie interdental.
A recomendação do CFO é visitar o dentista a cada 6 meses para profilaxia e avaliação. Durante essa consulta, o profissional verifica se há tártaro, gengivite ou cárie que o fio dental sozinho não resolve.
Se você está em Araraquara e quer orientação sobre a técnica de fio dental mais adequada para a sua boca --- especialmente se tem implante, prótese ou gengiva sensível --- a Dra. Sabrina Martins (CRO-SP 138491) atende na Rua Itália, 1294. Agende uma avaliação pelo WhatsApp.
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