Como cuidar dos dentes das crianças: da primeira escovação à troca dos dentes de leite
Cuidar dos dentes das crianças: 53% já tiveram cárie aos 5 anos. Aprenda escovação, fio dental, quantidade de pasta e quando ir ao dentista.
Dra. Sabrina Martins
CRO-SP 138491 · Sobre a equipe
Se o seu filho tem entre 6 meses e 12 anos, a boca dele está mudando o tempo todo. Dentes nascem, caem, nascem de novo. A cárie pode aparecer no primeiro dentinho de leite --- e aparecer rápido. Segundo a pesquisa SB Brasil 2023 do Ministério da Saúde, quase metade das crianças brasileiras de 5 anos já teve pelo menos uma cárie. O número melhorou nos últimos 13 anos, mas ainda é alto. A boa notícia: a maioria dos problemas bucais na infância pode ser prevenida. Cuidar dos dentes das crianças depende de três coisas simples --- escovação correta, pasta com flúor e visitas regulares ao dentista.
Quando começar a cuidar dos dentes das crianças
A higiene bucal do bebê começa antes do primeiro dente aparecer. Nos primeiros meses de vida, a recomendação da Associação Brasileira de Odontopediatria é limpar a gengiva com gaze umedecida em água filtrada após as mamadas. Parece exagero? Não é. O leite materno e a fórmula contêm açúcares que alimentam bactérias. A limpeza remove esses resíduos e já acostuma o bebê ao toque na boca.
Quando o primeiro dente erupciona --- por volta dos 6 meses --- a escova entra em cena. Uma escova infantil de cerdas macias, cabeça pequena. E pasta de dente com flúor desde o começo. Sem flúor não previne cárie.
A primeira consulta com o dentista deve acontecer antes do primeiro aniversário. A recomendação vale para o CFO, para a Sociedade Brasileira de Pediatria e para a Academia Americana de Odontopediatria. O dentista avalia se a erupção está no ritmo esperado, orienta sobre higiene e alimentação, e identifica riscos precoces de cárie.
Pasta com flúor: a quantidade certa por idade
Esse é o ponto que mais gera dúvida entre pais. A resposta muda conforme a idade.
Até 3 anos: um grão de arroz cru. Quantidade mínima, mas suficiente para entregar flúor ao esmalte. A concentração da pasta precisa ser de no mínimo 1.000 ppm de flúor --- aquelas pastas “sem flúor” para bebês não protegem contra cárie. A Associação Brasileira de Odontopediatria e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam flúor desde o primeiro dente, com a quantidade controlada para evitar ingestão excessiva.
De 3 a 6 anos: um grão de ervilha. A criança já tem mais dentes e consegue cuspir parte da espuma (nem sempre, mas tenta). A mesma pasta de 1.000 ppm funciona.
Acima de 6 anos: a quantidade aumenta um pouco, mas não precisa cobrir toda a escova. Uma faixa que cubra a largura das cerdas já basta.
Na prática, a regra é: pouca pasta, com flúor, sempre. A quantidade pequena minimiza o risco de fluorose (manchas brancas no esmalte por excesso de flúor) enquanto protege contra a cárie.
Escovação e fio dental: o passo a passo real
Ninguém nasce sabendo escovar. Os dentes das crianças precisam de um adulto por anos até que a coordenação motora permita uma limpeza eficaz. Até os 7 anos, quem escova é o adulto. Dos 7 aos 10, a criança escova e o adulto supervisiona e complementa.
Posição: sente a criança no seu colo, de costas para você, ou de pé com a cabeça levemente inclinada para trás. A ideia é ter visão direta dos dentes, como o dentista tem. Segurar a cabeça apoiada no braço funciona bem com crianças pequenas.
Movimentos: escova inclinada a 45 graus em relação à gengiva. Movimentos circulares ou de vaivém curtos, sem pressão excessiva. Todas as faces: a de fora (voltada para a bochecha), a de dentro (voltada para a língua) e a de cima (onde a criança mastiga). Pais tendem a esquecer a face interna dos dentes da frente --- e é justamente ali que a placa bacteriana se acumula com facilidade.
Tempo: 2 minutos. Parece pouco, mas para uma criança de 3 anos são 2 minutos eternos. Música, timer visual, escovação junto com os pais --- qualquer recurso que transforme os 2 minutos em rotina vale.
Frequência: no mínimo 2 vezes ao dia. A escovação antes de dormir é a mais relevante. Durante a noite, a produção de saliva cai e a proteção natural da boca diminui. Bactérias adoram turnos noturnos com restos de comida disponíveis.
Fio dental: a partir de quando
A partir do momento em que dois dentes da criança encostam um no outro --- geralmente entre 2 e 3 anos --- o fio dental entra na rotina. A escova não alcança o espaço entre os dentes. É ali que a cárie interproximal (entre dentes) começa.
Fio dental com haste (aqueles em formato de forquilha) facilita a vida dos pais. A criança aceita com mais naturalidade, o adulto tem controle do movimento. Quem passa o fio é o adulto até a criança desenvolver coordenação motora fina --- o que costuma acontecer por volta dos 8 a 10 anos.
Por que dentes de leite importam tanto
Existe um mito persistente: “é dente de leite, vai cair mesmo”. Muitos pais tratam cárie em dente de leite como algo que pode esperar. Não pode.
Dentes de leite cumprem funções que vão além de mastigar. Eles reservam espaço para os dentes permanentes que vão nascer embaixo. Quando um dente de leite é perdido antes da hora --- por cárie avançada ou extração --- os dentes vizinhos migram para o espaço vazio. Resultado: o permanente nasce torto, sem espaço, e o problema que custaria uma restauração simples vira tratamento ortodôntico anos depois.
Dentes de leite também influenciam a fala. A criança que perde incisivos superiores cedo pode ter dificuldade com fonemas como “t”, “d”, “s” e “f” durante uma fase crítica do desenvolvimento da linguagem.
A cronologia é mais ou menos assim: os primeiros dentes de leite aparecem por volta dos 6 meses. Aos 3 anos, a criança tem 20 dentes de leite. A troca começa entre 6 e 7 anos, pelos incisivos inferiores. Os últimos dentes de leite --- os segundos molares --- caem por volta dos 10 a 12 anos. São quase 6 anos de troca. Durante todo esse período, dentes de leite e permanentes convivem na mesma boca e ambos precisam de cuidado.
Cárie de mamadeira e alimentação: os erros silenciosos
A cárie de mamadeira (ou cárie precoce da infância) é um dos problemas mais comuns em crianças menores de 4 anos. O nome vem da causa: o bebê adormece com a mamadeira na boca --- geralmente com leite adoçado, suco ou achocolatado --- e o líquido açucarado fica em contato com os dentes durante horas. O mesmo acontece com a amamentação noturna sem limpeza posterior.
O açúcar alimenta as bactérias. As bactérias produzem ácido. O ácido corrói o esmalte. Em dentes de leite, esse processo é rápido --- o esmalte é mais fino e menos mineralizado que o do dente permanente.
Sinais iniciais: manchas brancas ou opacas nos dentes da frente superiores. Se não tratado, evolui para cavidades marrons ou pretas que podem destruir a coroa inteira do dente.
Como prevenir: não deixe a criança dormir com mamadeira de leite adoçado, suco ou achocolatado. Se ela precisa da mamadeira para adormecer, use apenas água. Limpe os dentes e a gengiva após a última mamada da noite. Evite mergulhar a chupeta em açúcar ou mel. Leve ao dentista antes do primeiro aniversário para identificar manchas iniciais que ainda podem ser revertidas com flúor.
Açúcar escondido: o problema que a escovação não resolve sozinha
A escovação cuida de parte da equação. A alimentação cuida da outra. E não é só “evitar doces”.
Sucos de caixinha, biscoitos “salgados” (que contêm açúcar na formulação), achocolatados, iogurtes industrializados --- tudo isso alimenta bactérias. A criança pode escovar três vezes por dia e ainda ter cárie se o consumo de açúcar entre as refeições for constante.
O mecanismo é direto: cada vez que a criança come algo com açúcar, as bactérias na boca produzem ácido. O ácido ataca o esmalte por 20 a 30 minutos. Se os episódios de açúcar são frequentes ao longo do dia, o esmalte não tem tempo de se recuperar. Não é a quantidade total de açúcar que importa --- é a frequência.
Na prática: concentre os doces nas refeições principais (sobremesa) em vez de espalhá-los pelo dia. Ofereça água em vez de suco entre as refeições. Frutas inteiras funcionam porque a fibra reduz o contato do açúcar com os dentes.
Selante, profilaxia e flúor: as proteções profissionais
Além da escovação e do fio dental em casa, existem três procedimentos no consultório que fazem diferença real nos dentes das crianças.
Selante dental
O selante é uma resina fina aplicada nos sulcos dos molares permanentes --- aqueles dentes que nascem lá no fundo da boca entre 6 e 12 anos. Esses sulcos são profundos e estreitos. As cerdas da escova não chegam ao fundo. É exatamente ali que a maioria das cáries em crianças começa.
O procedimento é simples, indolor e rápido. O dentista limpa o dente, aplica um gel ácido para criar aderência, lava, seca e aplica a resina seladora. Cura com luz. A criança sai da cadeira em 10 minutos com os molares protegidos.
Estudos mostram que o selante pode reduzir em até 80% o risco de cárie nos molares nos primeiros 2 anos após a aplicação, segundo pesquisa publicada pelo Ministério da Saúde. O efeito protetor pode durar 4 a 5 anos com acompanhamento regular.
A janela ideal para aplicar o selante é logo após a erupção do molar permanente --- entre 6 e 7 anos para o primeiro molar e entre 11 e 13 anos para o segundo. Se o dente já tem cárie, o selante não resolve. A prevenção precisa vir antes do problema.
Profilaxia e flúor no consultório
A profilaxia (limpeza profissional) remove placa bacteriana e tártaro que a escovação doméstica não alcança. Combinada com aplicação tópica de flúor, fortalece o esmalte e reverte manchas brancas iniciais que ainda não viraram cavidade.
A recomendação é uma consulta a cada 6 meses. Pra criança, a consulta semestral é prevenção pura. Tratar uma mancha branca no esmalte é muito mais simples, rápido e barato do que restaurar uma cárie profunda que precisa de anestesia. A conta fecha: 2 consultas preventivas por ano custam menos (em dinheiro e em trauma emocional) do que 1 tratamento de emergência.
O medo do dentista: como evitar e como lidar
A criança que vai ao dentista pela primeira vez aos 5 anos, com dor, numa cadeira estranha, com barulhos desconhecidos --- vai ter medo. É previsível. O caminho para evitar isso é simples: comece cedo, antes de existir problema.
A primeira consulta preventiva --- sem dor, sem procedimento invasivo --- cria familiaridade. A criança conhece o ambiente, vê a cadeira subir e descer, sente o jato de ar, ganha uma escova. Na segunda visita, ela já sabe o que espera. Na terceira, entra sozinha. Esse processo de dessensibilização é uma das técnicas mais eficazes da odontopediatria.
Se o medo já existe, algumas estratégias ajudam. Brincar de dentista em casa, com pelúcia e escova, funciona bem com crianças menores. Não use o dentista como ameaça (“se não escovar os dentes, vou te levar no dentista”) --- isso cria associação negativa que demora anos para desfazer. E escolha um profissional com experiência em atendimento infantil. A abordagem faz toda a diferença.
5 erros que aumentam o risco de cárie nos dentes das crianças
1. Não escovar à noite. A escovação noturna é a mais relevante. Pular essa etapa deixa restos de comida e bactérias trabalhando por 8 a 10 horas seguidas na boca da criança.
2. Usar pasta sem flúor até os 3 anos. A recomendação mudou. As principais entidades de saúde bucal do Brasil e do mundo recomendam flúor desde o primeiro dente, com quantidade controlada.
3. Deixar a criança escovar sozinha cedo demais. Antes dos 7 anos, a coordenação motora da criança não permite uma escovação eficaz. O adulto precisa escovar. Deixar a criança “treinar” com a escova é ótimo --- mas o adulto faz a escovação de verdade depois.
4. Ignorar a cárie no dente de leite. “Vai cair mesmo” é a frase que mais gera problemas futuros. Cárie não tratada em dente de leite pode atingir a polpa, causar infecção e comprometer o dente permanente que está se formando embaixo.
5. Adiar a primeira consulta. Esperar até a criança ter 3 ou 4 anos --- ou até aparecer dor --- elimina a janela de prevenção. A primeira consulta deve acontecer antes de completar 1 ano.
Sinais de urgência: quando não esperar a consulta semestral
Nem tudo pode esperar. Leve a criança ao dentista o quanto antes se notar: manchas brancas ou marrons nos dentes que não saem com a escovação; gengiva vermelha, inchada ou que sangra; dor ao mastigar ou sensibilidade ao frio e ao calor; dente de leite que não cai e o permanente está nascendo por trás; mau hálito persistente; ou qualquer trauma na boca --- queda, pancada, dente lascado ou solto. Esses sinais pedem atenção antes que o problema evolua. Veja também nosso guia de emergência dentária em Araraquara para situações mais graves.
A rotina que funciona
Resumindo o que os dados e a experiência clínica mostram: escove os dentes da criança 2 vezes por dia com pasta fluoretada (1.000 ppm), na quantidade certa para a idade. Use fio dental quando os dentes encostarem. Leve ao dentista antes do primeiro aniversário e mantenha consultas a cada 6 meses. Controle a frequência de açúcar entre as refeições. Aplique selante nos molares permanentes entre 6 e 12 anos. Trate cárie em dente de leite como você trataria em dente permanente.
Não precisa ser perfeito. Precisa ser consistente. Cuidar dos dentes das crianças desde cedo é o investimento com retorno mais certo em saúde bucal. Quem cresce com essas 6 práticas tem chances muito menores de precisar de tratamento restaurador complexo na adolescência.
Se você quer orientação individualizada sobre a saúde bucal do seu filho em Araraquara, a Dra. Sabrina Martins (CRO-SP 138491) atende crianças de todas as idades com foco em prevenção e atendimento acolhedor. Agende uma avaliação pelo WhatsApp e tire suas dúvidas.
Artigo revisado por Dra. Sabrina Martins --- Cirurgia-Dentista (CRO-SP 138491). Conteudo informativo, nao substitui avaliacao clinica individual.
Artigos relacionados
Clareamento Dental Estraga o Dente?
Clareamento dental estraga dente? Não quando supervisionado — 28 estudos confirmam. Veja o que causa dano real e como evitar sensibilidade.
Emergência Dentária em Araraquara: O Que Fazer
Emergência dentária Araraquara: dente quebrado, dor aguda ou abscesso? Saiba o que fazer nos primeiros 30 minutos e onde buscar atendimento urgente.