Clareamento dental estraga o dente? O que a ciência diz sobre esmalte, sensibilidade e riscos reais
Clareamento dental estraga dente? Não quando supervisionado — 28 estudos confirmam. Veja o que causa dano real e como evitar sensibilidade.
Dra. Sabrina Martins
CRO-SP 138491 · Sobre a equipe
Não. Clareamento dental não estraga o dente quando feito com supervisão profissional e gel registrado na ANVISA. Uma revisão sistemática com 28 estudos publicada no Journal of Clinical Medicine concluiu que o peróxido de carbamida, nas concentrações usadas em consultório, não causa alteração clinicamente significativa na microestrutura do esmalte. A sensibilidade que algumas pessoas sentem durante o tratamento é temporária e não significa dano permanente. O que realmente estraga o esmalte são receitas caseiras sem embasamento --- bicarbonato com limão, carvão ativado, fitas importadas sem registro. Essas sim desgastam.
O que acontece no esmalte durante o clareamento
O esmalte dental é a camada mais dura do corpo humano. Durante o clareamento dental, o peróxido de hidrogênio (ou o peróxido de carbamida, que se decompõe em peróxido de hidrogênio e ureia) penetra nos prismas do esmalte e oxida os pigmentos orgânicos que causam o amarelamento. O mecanismo é químico, não mecânico. O gel não raspa, não lixa e não remove camadas do dente.
Em nível microscópico, estudos in vitro detectam alterações de rugosidade e microdureza superficial logo após a aplicação do gel. Uma revisão da Universidade Federal de São Paulo mostrou que a permeabilidade dental aumenta durante o tratamento. Parece preocupante --- mas falta um detalhe que muda tudo.
A saliva recupera o esmalte. Após o contato com o gel, a saliva fornece cálcio e fosfato que remineralizam a superfície. Pesquisas da Faculdade de Odontologia da USP monitoraram esse ciclo e confirmaram: a microdureza do esmalte retorna aos valores iniciais em até 7 dias após o fim do tratamento. Os estudos in vitro que apontam dano permanente têm uma limitação séria --- não simulam o efeito protetor da saliva.
Por que tanta gente acha que estraga
Três motivos alimentam esse medo.
Primeiro: confusão entre sensibilidade e dano. O clareamento dental pode causar sensibilidade temporária nos dentes --- aquela fisgada ao beber água gelada ou tomar sorvete. Segundo uma revisão publicada na Revista Sociedade Científica, cerca de 54% dos pacientes relatam sensibilidade leve, 10% moderada e apenas 4% intensa. Na maioria dos casos, o desconforto desaparece em 48 horas. Sensibilidade não é sinônimo de esmalte danificado. Os túbulos dentinários ficam temporariamente mais permeáveis ao estímulo térmico durante o tratamento, e a sensação passa quando o efeito do peróxido cessa.
Segundo: relatos de quem usou produto errado. Gel comprado pela internet sem prescrição, fitas clareadoras sem registro na ANVISA, receitas de influenciador. Esses produtos podem ter pH instável, concentração incorreta ou substâncias abrasivas. O dano que causam é real --- mas o problema não é o clareamento em si, e sim o produto irregular.
Terceiro: estudos in vitro mal interpretados. Quando um estudo mergulha um pedaço de esmalte em peróxido de hidrogênio a 35% por horas seguidas, sem saliva, sem intervalos, o resultado é alteração de superfície. O ambiente da boca é completamente diferente. A saliva, a temperatura, o pH e o tempo de exposição controlado mudam o cenário. Resultados de laboratório isolados não refletem a realidade clínica.
O que a ciência realmente diz: dados concretos
Vamos separar o que é medo do que é evidência.
Uma revisão sistemática de 2014 publicada no Journal of the American Dental Association avaliou décadas de pesquisas sobre clareamento e concluiu que peróxido de hidrogênio e peróxido de carbamida são “seguros e eficazes quando as instruções do fabricante são seguidas”. A American Dental Association (ADA) reforça a posição: o procedimento é seguro quando feito sob orientação profissional.
No Brasil, o CRO-PR publicou um alerta distinguindo entre clareamento supervisionado (seguro) e uso indiscriminado de produtos de livre acesso (arriscado). A diferença está no controle: concentração do gel, tempo de aplicação, proteção gengival e acompanhamento pós-tratamento.
Sobre microdureza: sim, ela cai temporariamente durante o tratamento. Mas os valores se recuperam entre 7 e 14 dias após a última aplicação, conforme estudos monitorados com saliva artificial e in situ. O esmalte não fica permanentemente mais fraco.
Sobre rugosidade superficial: géis com pH controlado e dessensibilizantes na fórmula (nitrato de potássio, flúor) produzem alterações mínimas. Produtos com pH ácido e sem controle de qualidade causam dano real. Por isso a ANVISA regula.
O que realmente estraga o esmalte (e não é o clareamento)
O esmalte é resistente, mas não é indestrutível. E o que mais o desgasta no dia a dia tem pouco a ver com gel clareador.
Bicarbonato de sódio com limão. Essa combinação que circula nas redes sociais junta um abrasivo forte com um ácido potente. O resultado é erosão do esmalte --- um dano irreversível, porque esmalte não se regenera. O Hospital Odontológico publicou um alerta direto: essa receita está “destruindo dentes de milhões de pessoas”.
Carvão ativado. As partículas do carvão são mais abrasivas que as do bicarbonato. O uso repetido cria microfissuras no esmalte, aumenta a sensibilidade e, ironicamente, pode escurecer os dentes a longo prazo porque a dentina exposta é naturalmente mais amarela. Pesquisas mostram que o carvão não tem nenhuma evidência científica de eficácia clareadora.
Fitas clareadoras sem registro. A ANVISA proibiu e mandou apreender as fitas 9D White em janeiro de 2026. O produto sequer tinha registro sanitário. A RDC 923/2024 da ANVISA (que substituiu a antiga RDC 06/2015) mantém a regra: qualquer clareador com mais de 3% de peróxido de hidrogênio só pode ser vendido com prescrição de cirurgião-dentista.
Escovação agressiva. Escovar os dentes com muita força, usando escova de cerdas duras, desgasta o esmalte ao longo dos anos. Nenhum gel clareador supervisionado causa o dano que uma escovação errada faz em uma década.
Sensibilidade durante o clareamento: o que esperar
A sensibilidade é o efeito colateral mais comum do clareamento dental. Não é sinal de dano --- é uma resposta temporária dos nervos do dente ao peróxido.
Na prática, a intensidade depende de três fatores: concentração do gel, tempo de exposição e sua predisposição individual.
No clareamento caseiro com peróxido de carbamida a 10-16%, a sensibilidade costuma ser leve. Uma fisgada ao tomar água gelada que desaparece em horas. O gel de baixa concentração libera peróxido de hidrogênio gradualmente, o que reduz o pico de irritação.
No clareamento de consultório com peróxido de hidrogênio a 25-35%, a sensibilidade pode ser moderada a intensa nas primeiras 24-48 horas. Géis modernos já vêm com dessensibilizantes (nitrato de potássio a 5% e fluoreto de sódio) que ajudam a minimizar o desconforto.
Se você já tem sensibilidade nos dentes antes do tratamento --- dor ao comer sorvete ou beber café quente --- o dentista precisa saber. Pode ser necessário tratar a sensibilidade primeiro, escolher gel de concentração mais baixa ou usar dessensibilizante antes de começar.
Quem não deve fazer clareamento
Nem todo mundo pode clarear os dentes agora. Algumas situações exigem tratamento prévio ou contraindicam o procedimento:
Cárie ativa. O peróxido penetra na cavidade cariosa e atinge a polpa, causando dor intensa. Primeiro resolve a cárie, depois clareia.
Gestantes e lactantes. Não há estudos de segurança suficientes nessa população. A recomendação padrão é adiar.
Menores de 16 anos. A polpa dental ainda está em desenvolvimento e é mais vulnerável ao peróxido. Não há consenso de segurança para essa faixa etária.
Restaurações extensas nos dentes da frente. O gel não clareia resina composta, porcelana nem cerâmica. Se os dentes anteriores têm restaurações grandes, o resultado pode ficar desigual. O planejamento precisa incluir a possível troca dessas restaurações após o clareamento.
Doença periodontal ativa. Gengivite ou periodontite sem tratamento torna o procedimento arriscado. A gengiva inflamada reage mal ao peróxido.
Todas essas condições são avaliadas na consulta prévia. Clareamento dental é procedimento clínico, não estético de prateleira. A avaliação individual define se é seguro no seu caso.
5 perguntas que valem mais do que 100 mitos
Se você está pensando em clarear, leve estas perguntas na consulta:
1. Meus dentes estão saudáveis para clarear agora? Cárie, restauração infiltrada e gengivite precisam ser resolvidas antes. Não adianta clarear sobre um problema.
2. Qual concentração de gel é adequada para mim? Para quem tem sensibilidade, carbamida a 10% é diferente de hidrogênio a 35%. A escolha depende do seu histórico.
3. Quanto tempo dura o efeito? Entre 1 e 3 anos, dependendo dos seus hábitos com café, vinho tinto e cigarro. Manutenção periódica com moldeira e gel pode estender o resultado. Veja mais detalhes em quanto custa clareamento dental.
4. Vou precisar trocar alguma restauração depois? Resina composta e porcelana não clareiam junto com o dente natural. Se houver restaurações visíveis, elas podem precisar de troca para combinar com a nova cor.
5. Qual tipo faz mais sentido pro meu caso? A comparação completa entre clareamento caseiro e de consultório ajuda a entender as diferenças práticas.
A regulação existe para proteger você
O CFO (Conselho Federal de Odontologia) classifica o clareamento dental como procedimento clínico. Somente cirurgiões-dentistas podem realizar ou prescrever. Esteticistas, farmacêuticos e influenciadores digitais não têm autorização.
A ANVISA, pela RDC 923/2024, mantém a regra que existia desde 2015: clareador com concentração acima de 3% de peróxido de hidrogênio só pode ser vendido com receita odontológica. A embalagem precisa trazer “Venda sob prescrição odontológica”.
Na prática, gel vendido em marketplace sem CRO no documento fiscal é ilegal. Pode não ter a concentração informada, pode ter pH instável e pode causar dano que custa muito mais do que o clareamento dental feito corretamente.
O resumo que importa
Clareamento dental supervisionado, com gel registrado, na concentração certa para o seu caso, não estraga o dente. A ciência tem décadas de dados mostrando segurança quando o protocolo é seguido. A sensibilidade é temporária. O esmalte se recupera.
O que estraga de verdade é produto sem registro, receita caseira abrasiva e falta de acompanhamento. A diferença entre um dente saudável e claro e um dente danificado está na supervisão profissional.
Se você quer clarear os dentes em Araraquara e ainda tem dúvidas sobre segurança, a Dra. Sabrina Martins (CRO-SP 138491) pode avaliar seu caso individualmente. Agende pelo WhatsApp e tire suas dúvidas antes de começar.
Artigo revisado por Dra. Sabrina Martins --- Cirurgia-Dentista (CRO-SP 138491). Conteudo informativo, nao substitui avaliacao clinica individual.
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