Bruxismo: sintomas que passam despercebidos, causas reais e tratamento que funciona na prática
Bruxismo sintomas tratamento: 40% dos brasileiros rangem os dentes. Diagnóstico, placa miorrelaxante e quando procurar um dentista em Araraquara.
Dr. Felipe Crespilho
CRO-SP 130734 · Sobre a equipe
Se você acorda com a mandíbula travada, dor nas têmporas ou a sensação de que dormiu apertando os dentes a noite inteira, provavelmente já convive com bruxismo. O problema afeta cerca de 40% da população brasileira, segundo dados citados pela Agência Brasil com base em pesquisa da OMS. E a maioria dessas pessoas não sabe que tem. O desgaste dos dentes acontece devagar, a dor de cabeça vira “normal”, e o diagnóstico só aparece quando o dente trinca ou a articulação da mandíbula começa a estalar.
Bruxismo não tem cura. Mas tem controle --- e controle bom, com resultado rápido. Neste guia, você vai entender os sintomas que passam despercebidos, as causas que vão além do estresse, e o que funciona de verdade no tratamento.
Bruxismo do sono e bruxismo de vigília: duas condições diferentes
A classificação internacional atualizada em 2025, publicada no Journal of Oral Rehabilitation e referendada pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), reclassificou o bruxismo. Não é mais considerado uma doença. É um comportamento motor que pode funcionar como fator de risco, fator protetor ou fator neutro --- dependendo do contexto clínico do paciente.
Na prática, existem dois tipos:
Bruxismo do sono. Você range ou aperta os dentes enquanto dorme. A força exercida pode chegar a 6 vezes a força mastigatória normal. O parceiro costuma ser o primeiro a perceber --- pelo barulho. Segundo o CRO-SP, cerca de 15% da população apresenta bruxismo do sono, com maior prevalência em mulheres (65% dos casos).
Bruxismo de vigília. Você aperta os dentes durante o dia, normalmente sem perceber. Acontece em momentos de concentração, tensão ou esforço físico. Não tem barulho --- é um apertamento silencioso. O diagnóstico é mais difícil porque o paciente precisa se auto-observar.
A diferença entre os dois importa no tratamento. A placa miorrelaxante resolve bem o bruxismo do sono. No bruxismo de vigília, a abordagem é outra --- mais comportamental.
7 sintomas de bruxismo que a maioria ignora
O bruxismo age devagar. Os sintomas se instalam aos poucos, e muita gente convive anos sem associar os sinais ao hábito de apertar ou ranger os dentes.
1. Dor na mandíbula ao acordar. O músculo masseter --- o principal músculo da mastigação --- fica hiperativo durante a noite. A manhã começa com a mandíbula pesada, dolorida, às vezes travada. Se isso acontece três ou mais vezes por semana, o sinal é forte.
2. Dor de cabeça nas têmporas. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde lista a cefaleia temporal como um dos sintomas mais frequentes. A dor aparece ao acordar e costuma melhorar ao longo do dia. Muita gente trata como enxaqueca por anos --- sem investigar a causa.
3. Dentes desgastados. Bordas dos dentes anteriores ficam planas, como se tivessem sido limadas. A superfície dos molares perde os sulcos naturais. No exame clínico, o cirurgião-dentista identifica facetas de desgaste --- áreas lisas e brilhantes no esmalte que indicam atrito repetitivo entre dentes.
4. Sensibilidade dentária. Quando o esmalte se desgasta, a dentina fica exposta. Café quente, sorvete, ar frio --- tudo provoca um incômodo agudo. A sensibilidade aumenta progressivamente.
5. Trincas e fraturas. Restaurações que soltam sem motivo aparente. Um dente que lasca mastigando algo mole. Uma coroa que descementa antes do tempo. O bruxismo sobrecarrega estruturas que não foram projetadas para aguentar forças de 500 N repetidas noite após noite.
6. Estalos na ATM. A articulação temporomandibular começa a estalar ao abrir e fechar a boca. Com o tempo, o disco articular se desloca e a boca pode travar --- aberta ou fechada. Disfunção da ATM causada por bruxismo crônico é um dos quadros mais desconfortáveis em odontologia.
7. Marcas na língua e na bochecha. Ao apertar os dentes, a língua é pressionada contra a arcada inferior. Resultado: marcas onduladas nas bordas laterais da língua. A bochecha também mostra linhas internas de mordida. São sinais que o dentista percebe no exame, mesmo que o paciente nunca tenha notado.
O que causa bruxismo: não é só estresse
A resposta rápida que todo mundo ouve --- “bruxismo é causado por estresse” --- é incompleta. O estresse é o gatilho mais citado, sim. Mas a lista de fatores é maior e mais complexa.
Ansiedade e depressão. O CRO-SP classifica os fatores psicológicos como os de maior peso no bruxismo do sono. Ansiedade e depressão ativam o sistema nervoso central de forma crônica, e essa ativação se manifesta na musculatura da mandíbula durante o sono.
Distúrbios do sono. Apneia obstrutiva, ronco e microdespertares frequentes estão associados ao bruxismo. A polissonografia --- exame padrão-ouro para diagnosticar distúrbios do sono --- mostra que episódios de bruxismo costumam coincidir com microdespertares de 3 a 15 segundos.
Medicamentos. Alguns antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) podem induzir ou agravar o bruxismo. Se você toma fluoxetina, sertralina ou paroxetina e percebeu piora, avise seu médico. A troca ou ajuste de dose costuma resolver.
Genética. Histórico familiar conta. Quem tem pai ou mãe com bruxismo tem maior probabilidade de desenvolver o comportamento.
Hábitos e substâncias. Cafeína em excesso, álcool, tabaco e drogas estimulantes aumentam a atividade muscular durante o sono. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde também inclui o refluxo gastroesofágico na lista de fatores associados.
Má oclusão. Contatos inadequados entre os dentes ainda aparecem na literatura como possível contribuinte. Mas o consenso internacional de 2025 dá menos peso a fatores morfológicos e mais peso a fatores centrais --- psicológicos, neurológicos e farmacológicos.
Um dado que ilustra a dimensão do problema: pesquisa conduzida pela USP e pela UFMG durante a pandemia de COVID-19 mostrou que 76% dos entrevistados relataram início ou agravamento de sintomas de bruxismo nos primeiros meses de isolamento, segundo reportagem do Jornal da USP. Estresse elevado por tempo prolongado é combustível para o bruxismo.
Como o bruxismo é diagnosticado
Diferente de cárie ou gengivite, o bruxismo não aparece num raio-x isolado. O diagnóstico combina exame clínico com relato do paciente --- e, em alguns casos, exames complementares.
Exame clínico. O cirurgião-dentista avalia o padrão de desgaste dos dentes, a musculatura da mandíbula (palpação dos músculos masseter e temporal), a articulação temporomandibular e os tecidos moles. Facetas de desgaste, trincas no esmalte e marcas na língua formam o quadro clínico típico.
Relato do paciente e parceiro. Você acorda com dor? O parceiro ouve barulho de ranger à noite? Sente a mandíbula cansada pela manhã? Essas perguntas são parte essencial do diagnóstico. Muitos casos só são detectados porque alguém do lado percebeu o barulho durante o sono.
Polissonografia. É o exame padrão-ouro para confirmar bruxismo do sono. Monitora atividade muscular, cerebral e respiratória durante a noite. Não é obrigatório em todos os casos --- o dentista indica quando há suspeita de apneia associada ou quando o quadro clínico não é conclusivo.
Critérios da ICSD-3. A Classificação Internacional de Distúrbios do Sono estabelece critérios formais: sons regulares de ranger durante o sono associados a pelo menos um sinal clínico --- dor ou fadiga matinal na mandíbula, cefaleia ao acordar, ou travamento da mandíbula.
Um cenário concreto: um paciente de 38 anos chega ao consultório com dor de cabeça recorrente e uma restauração que soltou pela terceira vez em dois anos. No exame, o dentista encontra facetas de desgaste nos molares, sensibilidade nos músculos temporais e marcas na bochecha interna. O parceiro confirma barulho à noite. Diagnóstico: bruxismo do sono. Sem polissonografia necessária nesse caso --- os critérios clínicos já são suficientes.
Tratamento do bruxismo: o que funciona com evidência
O objetivo do tratamento não é “curar” o bruxismo. O consenso internacional de 2025 deixa claro: o foco é avaliar e gerenciar as consequências negativas, considerando o contexto biopsicossocial do paciente. Na prática, isso significa proteger os dentes, aliviar a dor e atacar os gatilhos.
Placa miorrelaxante: a primeira linha
A placa miorrelaxante --- também chamada de placa oclusal ou placa de bruxismo --- é o tratamento mais prescrito. Feita sob medida em acrílico rígido, ela cria uma superfície lisa entre as arcadas. Quando você range ou aperta durante o sono, a força se distribui pela placa em vez de se concentrar em pontos específicos dos dentes.
O que ela faz:
- Protege o esmalte e as restaurações do desgaste
- Relaxa a musculatura da mandíbula
- Reduz a pressão sobre a articulação temporomandibular
- Diminui dores de cabeça e na mandíbula
A placa não impede o bruxismo --- você continua rangendo ou apertando. Mas impede o dano. A revisão Cochrane sobre placas oclusais para bruxismo do sono (publicada pela UNIFESP/EPM) indica que a evidência ainda é insuficiente para afirmar que as placas reduzem o bruxismo em si. Porém, na prática clínica, a proteção dentária e o alívio de sintomas são consistentes.
A confecção é simples: moldagem da arcada, produção no laboratório (1 a 2 semanas) e ajuste em consultório. A adaptação leva de 1 a 3 semanas. Alguns pacientes estranham nas primeiras noites, mas a maioria se acostuma rápido.
Fisioterapia e exercícios
Fisioterapia focada na articulação temporomandibular e na musculatura mastigatória complementa o uso da placa. Técnicas incluem terapia manual, TENS (estimulação elétrica transcutânea), laserterapia e exercícios de alongamento e relaxamento muscular.
O papel da fisioterapia é reduzir a tensão acumulada nos músculos masseter e temporal, melhorar a amplitude de abertura da boca e aliviar dor na ATM. Para quem tem disfunção temporomandibular associada ao bruxismo, a fisioterapia não é complemento --- é necessidade.
Toxina botulínica no masseter
A aplicação de toxina botulínica nos músculos masseter e temporal reduz a força de contração involuntária. Revisões de literatura publicadas em periódicos de odontologia mostram redução significativa na dor e na frequência dos episódios de bruxismo.
Funciona bem para casos moderados a severos em que a placa sozinha não controla os sintomas. O efeito dura de 3 a 6 meses, e a reaplicação é necessária. Limitações: custo mais elevado e ausência de protocolos padronizados de dosagem.
Gestão do estresse e abordagem comportamental
O bruxismo de vigília responde melhor a estratégias comportamentais. Terapia cognitivo-comportamental, técnicas de atenção plena (mindfulness) e biofeedback ajudam o paciente a perceber o apertamento durante o dia e interromper o padrão.
Higiene do sono também faz parte: horários regulares, redução de telas antes de dormir, evitar cafeína a partir do meio da tarde. Parece básico, mas a qualidade do sono influencia diretamente a intensidade do bruxismo noturno.
Ajuste oclusal e restauração
Quando o bruxismo já causou dano significativo --- dentes com desgaste severo, restaurações fraturadas, mordida alterada --- o tratamento restaurador entra em cena. Coroas de porcelana ou zircônia reconstroem a anatomia perdida. Em casos extremos, a reabilitação oral completa pode ser necessária.
O ajuste oclusal --- correção fina dos pontos de contato entre os dentes --- é indicado quando há interferências que contribuem para o quadro. Mas o consenso atual é cauteloso: ajustes irreversíveis devem ser a última opção, não a primeira.
Consequências de não tratar: o que o bruxismo faz a longo prazo
Bruxismo não tratado é um problema progressivo. O dano se acumula ao longo de anos, e cada estrutura afetada encarece o tratamento futuro.
Desgaste severo dos dentes. Os dentes perdem altura. A mordida muda. A face parece mais curta. Reconstruir dentes severamente desgastados exige reabilitação oral completa --- coroas em todos os dentes comprometidos. O custo e a complexidade são incomparáveis com uma placa miorrelaxante feita a tempo.
Fraturas de dentes e restaurações. Forças repetitivas de até 500 N durante o sono superam a resistência do esmalte e de materiais restauradores. Quem tem implante dentário e bruxismo sem controle corre risco de fratura da coroa protética ou, pior, de perda do implante por sobrecarga. Vale ler sobre quanto tempo dura um implante --- o bruxismo é um dos principais fatores que encurtam essa durabilidade.
Disfunção da ATM. A articulação temporomandibular não foi projetada para funcionar sob pressão constante. O disco articular se desgasta, desloca e pode degenerar. O resultado: dor crônica, estalos, travamento da mandíbula e limitação da abertura bucal. Em casos avançados, o quadro é irreversível.
Impacto no sono. Bruxismo do sono e apneia obstrutiva frequentemente coexistem. A fragmentação do sono afeta a qualidade de vida, a produtividade e a saúde geral. O cansaço matinal que parece “normal” pode ter origem na mandíbula, não no colchão.
Bruxismo e implantes: um ponto que merece atenção
Se você tem bruxismo e está pensando em colocar implante, essa informação é essencial. A força de apertamento durante o bruxismo pode sobrecarregar a interface entre o pino de titânio e o osso. Implantes em pacientes com bruxismo não controlado têm maior risco de complicações mecânicas --- afrouxamento do parafuso, fratura da coroa ou perda de osseointegração.
A solução não é contraindicar o implante. É controlar o bruxismo antes e durante o tratamento. Placa miorrelaxante é obrigatória para quem tem implante e range os dentes. Sem negociação. Na avaliação pré-cirúrgica em Araraquara, esse ponto é investigado com atenção: sinais de desgaste, dor muscular, relato do parceiro.
Perguntas frequentes sobre bruxismo
Bruxismo tem cura? Não. Bruxismo é um comportamento motor, não uma doença com cura definitiva. Tem controle --- e bom controle. Com placa miorrelaxante, gestão do estresse e acompanhamento regular, a maioria dos pacientes vive sem sintomas e sem dano nos dentes.
Criança pode ter bruxismo? Sim. O bruxismo infantil é comum, principalmente entre 4 e 8 anos. Na maioria dos casos, é transitório e desaparece com a troca da dentição. O acompanhamento com o dentista é necessário para monitorar desgaste e descartar outras causas.
Placa de farmácia funciona? Não. Protetores bucais genéricos de silicone mole não têm efeito terapêutico. Podem até piorar o bruxismo porque estimulam a mastigação. A placa miorrelaxante é feita sob medida, em acrílico rígido, com ajuste preciso dos contatos oclusais.
Preciso de polissonografia pra diagnosticar bruxismo? Na maioria dos casos, não. O diagnóstico clínico --- exame dos dentes, músculos e ATM + relato do paciente --- é suficiente. A polissonografia é indicada quando há suspeita de apneia do sono associada ou quando o quadro clínico gera dúvida.
Bruxismo piora com o tempo? Pode piorar. O bruxismo é cíclico --- tem fases de maior e menor intensidade, geralmente acompanhando níveis de estresse. Sem proteção (placa), cada fase ativa acumula mais desgaste. Com proteção, o dano é interrompido mesmo durante as fases intensas.
Próximo passo: avaliação presencial
Bruxismo não se diagnostica por texto na internet. Os sinais descritos aqui ajudam você a desconfiar --- mas o diagnóstico precisa de exame clínico. O cirurgião-dentista avalia o padrão de desgaste, a musculatura, a articulação e decide o melhor caminho para o seu caso.
Se você acorda com dor na mandíbula, tem dor de cabeça frequente ou seu parceiro reclama do barulho de ranger à noite, agende uma avaliação pelo WhatsApp. O Dr. Felipe Crespilho (CRO-SP 130734) tem atuação em tratamento de bruxismo e reabilitação oral em Araraquara. A consulta inicial é o passo que separa quem convive com o problema de quem resolve.
Artigos relacionados
De Quanto em Quanto Tempo Ir ao Dentista?
De quanto em quanto tempo ir ao dentista? A cada 6 meses para a maioria, a cada 3 para grupos de risco. Sinais de alerta e quanto a prevenção economiza.
Emergência Dentária em Araraquara: O Que Fazer
Emergência dentária Araraquara: dente quebrado, dor aguda ou abscesso? Saiba o que fazer nos primeiros 30 minutos e onde buscar atendimento urgente.
Quanto Tempo Dura um Implante Dentário?
Quanto tempo dura implante dentário? O pino de titânio dura 20+ anos (96,4% em 10 anos). Veja o que influencia a longevidade e como cuidar bem.